Clipped Notes

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A casa onde meu avô e minha avó moravam era grande, com dois andares e um cheiro de “roupa guardada” sempre permeava o ambiente. A cozinha era estreita, porém espaçosa, com seu azulejo cor de madeira. Na geladeira do sobrado, isto aos meus sete anos, lembro das garrafas repletas de groselha que ele sempre bebia. Era um mar daquele líquido vinho.

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Eu tinha o hábito de desenhar quando meu avô era vivo e eu era criança. Ele dizia que eu fazia isso muito bem. Eu até pensei, na época, em ser desenhista. Os rabiscos eram a minha fuga da realidade. Lembro também que ele queria que eu escrevesse com a mão direita, mas, nasci canhota e serei até o fim.

Sempre fui assim, meio teimosa.  Embora eu segure a caneca com a mão destra e corte com ela, porque antigamente, muitos materiais eram fabricados para os “certos”, de forma que os “tortos”, como muitos denominam os canhotos, eram forçados a adquirir modos, para adaptar-se.

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Os fogos de final de ano, no bairro onde meus avós moravam, eram esplêndidos. Todos os vizinhos saiam nas ruas, nas praças em volta, para acompanhar de perto as luzes.

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A minha avó, esposa do meu avô em questão, por mais que eu me esforce, só consigo lembrar de uma cena dela. Mas, sei que ela amou todos nós. E nós também, de forma recíproca.

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Meu tio andava de skate. Era o auge dos anos 90 e ele era o típico “jovem rebelde sem causa”: camiseta grande e folgada, com os dizeres de alguma banda da época e o boné virado para trás. Uma vez, subi no skate, pensando que era fácil. Hoje, acho que se equilibrar no metrô é mais fácil.

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Meu avô gostava de me presentear com balas, quando eu era pequena. De vez em quando, ele me levava para o bar, de uma das esquinas. O recinto era simples e nem um pouco receptivo, com seus banquinhos e mesas sujas de plástico. O balcão era cercado daqueles adesivos característicos  dos caminhões das estradas. E nas paredes haviam cartazes, com propagandas de bebidas, das quais eu detestava, mesmo sem experimentar. Detesto até hoje.

Eu não gostava dos homens que frequentavam ali. Não gostava dos seus olhares.

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Meu avô, depois de um tempo, não sabia quantos anos eu tinha.

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Aos sábados à noite, dos quais eu esperava ansiosamente, minha família tinha o hábito de alugar filmes, quando ainda se assistia filmes com a ajuda das locadoras. “O Senhor dos Anéis”, com suas duas fitas cassete, me encantou desde a primeira cena. O macarrão a alho e óleo, que eu jantava, até esfriou no momento. Desde aquele dia, quis desesperadamente completar doze anos de idade (faixa etária permitida para ver o longa) para assistir ao outro filme da trilogia.

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Como eu gosto de complicar as coisas…! “Complicada e Perfeitinha” , já dizia as sábias palavras de “Mulher de Fases”, dos eternos e que nunca mais voltarão a ser os mesmos, “Raimundos”.

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“Dafne…? Nome de bruxa.” – Disse um certo dia uma colega minha.

“Dafne…Parece nome de vampira. Legal.” – comentou uma vez um rapaz.

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Espero que meus avós paternos, e o meu avô materno, estejam bem agora.